terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

'Fingi ser gari por 1 mês e vivi como um ser invisível'



Varredor de rua é uma profissão digna e desprezada. Gari.




Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.



Plínio Delphino, Diário de São Paulo.
 
O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou um mês como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. 

Ali,constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. 

Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 (em 2010) como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:

'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador. O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 

'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz.



No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. 

Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro.

Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse:

'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi.

Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?

Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central.  Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu

Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

 E depois de um mês trabalhando como gari? Isso mudou?

Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E quando você volta para casa, para seu mundo real?

Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais.  Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. 

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Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. 

Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. 

Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.  



*Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!



Comentário:

Amigos do site Psicologia Racional,


O que o psicólogo fez foi uma troca de papel. Ele sentiu o que o outro sente, viveu um pouco o que o outro vive. Foi o grande beneficiário de sua experiência. Tornou-se uma pessoa melhor, mais sensível, mais experiente.

E ofereceu a oportunidade para que cada um reflita sobre o que é na REALIDADE. Na realidade, e não em nossos discursos de amor e respeito.

A pessoa deve ganhar consciência de si mesmo para não ser um mero reprodutor dos preconceitos sociais. É através da autoconsciência que pode-se prestar atenção e valorizar o que não é socialmente valorizado.

Algum tempo atrás descobriu-se um mendigo "lindo". As pessoas ficaram indignadas: "como pode um mendigo tão lindo?". Muitos se ofereceram para ajudá-lo. O que despertou a atenção foi que ele era um mendigo que fugia dos padrões: não era feio. A indignação não era com sua condição social e de saúde mental. A indignação era porque ele era belo e pessoas belas merecem lugar melhor.

Parabéns ao pesquisador porque sua pesquisa faz várias pessoas refletirem e se colocarem no lugar dos outros.



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9 comentários:

  1. Pesquisa maravilhosa ... imagino como tenha se sentido, por isso devemos respeitar e aprender a enxergar o outro independente de sua posição social ... Abraços

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  2. Não existe uma posição social "priveligiada", todas são dignas, e devem ser respeitadas. No casao, aqui, os garis deixam nossas ruas limpas, já imaginou se ninguem o fizesse? Nossas cidades seriam um enorme lixão. Infelizmente a "sociedade" vê o "status" os "holofotes" que a "grana" traz. Parabéns pela iniciativa.
    Márcia

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  3. Digno de louvor esta atitude e pesquisa!
    O homem moderno cada vez está mais prepotente, uma autossuficiência doentia. A profissão, o cargo exercido tem o poder de dividir seres humanos! Realmente é triste, é para chorar!

    Que Deus nos ensine a sermos mais humildes!

    Abraços,

    RdxP

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  4. parabéns pra vc fernando !

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  5. Isso não acontece somente com os Garis nas ruas, mas com as faxineiras de banheiros públicos, nos shoppings, restaurantes, hotéis, festas, organizações, empresas, etc...
    Isso por que essa mão de obra é menosprezada e desvalorizada socialmente. Esquecemos que se trata de seres humanos trabalhadores, dignos de respeito, cuidado, de um gesto de educação e dignidade, representado talvez em um simples bom dia!
    Parabéns Fernado, pela ousadia e iniciativa de desenvolvimento de uma pesquisa com tema tão pertinente. Também sou psicologo e me interesso por temas sociais.

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  6. Já li muitos textos, li teorias, vi filmes e vivenciei muita coisa, mas poucas das coisas que vivi me edificou tanto em tão pouco tempo quanto a leitura desse texto. Agradeço ao Fernando Braga por isso. Excelente.

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  7. É um problema educacional, na Suécia, após os jovens concluirem o que aqui conhecemos como ensino médio, antes de ingressar na faculdade eles são incentivados a passar um período em trabalhos como faxineiro, caixa, garçom, lixeiro, etc... aqui no Brasil, com seu pensamento altamente provinciano não, o povo brasileiro como m... e arrota caviar, não somos um povo gentil, se somos gentis é com o etrangeiro, mas quando se trata do próprio brasileiro o papo é diferente, temos nossas qualidades sim, mas também temos que ressaltar nosssos defeitos para que eles sejam devidamente sanados.

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  8. Adelmo Junior, Ituiutaba-MG9 de julho de 2012 21:30

    Sem dúvidas o primeiro beneficiário deste magnífico caso Foi você Fernando. Voce aprendeu de uma forma muito dolorosa um dos dez mandamentos "Amar ao próximo como a tí mesmo". E o segundo beneficiário, ou melhor dizendo, os outros beneficiários somos nós mesmos, pessoas egoístas vivendo em um mundo, totalmente alienados e "condicionados" por nossas próprias mentes que tanto lutamos por defender. Tenho certeza de que, qualquer pessoa de uma classe social inferior a qual "talvez" a gente possa estar, ao ser tratada de igual para igual por nós se sente um pouco mais humana, talves até recompensada no final do dia, ao pensar que nem tudo está perdido. Parabens pela sua tese e que Deus te ilumine sempre.

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  9. Adorei o post! Gente isso é uma dura realidade... valores distorcidos no qual a profissão, o status é o que nos dar vida, posicionamento, ou então o que nos faz deixar de ser transparentes! Lamentável isso... imagino como estas pessoas se sentem... terrível! Belíssima pesquisa!


    O ser humano é bem mais do que ele possui materialmente!

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