terça-feira, 12 de abril de 2011

A arqueologia estudando Nazaré, a cidade onde Jesus cresceu

A páscoa está chegando. Como eu não gosto do coelhinho consumista, mas adoro ler e estudar, resolvi presenteá-los com alguns textos construtivos.  Quando visitei Nazaré fiquei encantado, com sua história e seu povo. Boas lembranças guardo daquela região. Aproveitem o texto!

"Segundo os evangelhos, Nazaré foi o lar de Jesus e Seus pais desde o retorno do Egito até mudar-se para Cafarnaum, por volta dos trinta e poucos anos de idade. Seus pais viveram ali antes de seu nascimento e Ele, com certeza, possuía parentes entre os habitantes do vilarejo.
Nos períodos romano e bizantino (até o 4° século), Nazaré fora uma insignificante vila, habitada em sua maioria por judeus pobres e incultos que se dedicavam à produção de vinho e óleo. Isso pelo menos é o que nos revelam as escavações de Bellarmino Bagatti, iniciadas em 1955, que trouxeram a lume um considerável número de prensas para azeitonas e uvas, além de depósitos de água, vinho e pão (1).'
Como se pode notar, o oficio de José não era a especialidade local, de modo que não é improvável supor que a família de Jesus fosse a única engajada no ramo da carpintaria construtora. O tamanho ínfimo da cidade nos leva a crer nisso.
Confirmando a insignificância do vilarejo onde viveu Jesus, temos o fato de que nem o Antigo Testamento nem Josefo ou sequer oTalmude, mencionam seu nome em qualquer parte de seus textos. Daí entendermos o comentário de Natanael, preservado por João: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (Jo 1:46). De fato, a localização de 23 sepulturas ao norte, oeste e sul nos ajudam a decifrar o contorno e o modesto tamanho da vila, pois os cemitérios ficavam fora das cidades. Nazaré, portanto, teria algo em tomo de 700 a 900 metros de extensão com uma população estimada em 500 habitantes (2).
Ainda não se localizou com precisão a sinagoga de Nazaré, mencionada em Lucas 4:16. Mas há duas possibilidades: de que ela esteja no mesmo local da igreja de Bagatti (a Sinagoga transformada em lugar de reuniões cristãs) ou sob o atual cemitério muçulmano, também chamado “lugar do forte”. As evidências em favor deste último são que os romanos destruíram as sinagogas judaicas no período de Adriano, construindo fortalezas sobre seus escombros, por isso
o nome “lugar do forte”. Mais tarde, vieram os muçulmanos com o costume de colocar túmulos sobre todos os locais judaicos considerados sagrados, pois assim pensavam impedir a chegada do Messias que, como sacerdote, não poderia pisar em cemitérios.
Vários autores têm suposto que, com o passar dos anos e o constante avanço da pregação apostólica, alguns dos parentes sangüíneos de Jesus pretenderam fazer de Nazaré o centro administrativo da igreja cristã (3). Pistas históricas têm levado a crer que ao mesmo tempo em que os apóstolos pregavam o evangelho em Jerusalém, Samaria, Antioquia e Asia, uma pequena comunidade judaico-cristã, formada sobretudo por familiares de Cristo, fixou-se em Nazaré, sobrevivendo até meados do 3° século. Essa comunidade estaria separada administrativamente do grupo dos doze e, em princípio, até em atrito com eles, devido aos problemáticos assuntos da circuncisão e da pregação aos gentios. Ao que tudo indica, a postura de Tiago apoiando o ministério gentílico não agradou muito aos demais filhos de José.
A favor dessa tradição temos dois antigos testemunhos: o primeiro de Julio Africano (160-240 d.C.), que afirmava ser Nazaré o centro da atividade missionária judaico-cristã (4); o segundo vem-nos de um certo Conon, martirizado durante o reinado de Décio, que teria confessado perante a corte romana: “Eu sou de Nazaré [situada] na Galiléia, sou da família de Cristo, ao qual ofereço culto desde a época de meus ancestrais” (5). Um ponto, porém, vulnerável desses testemunhos é o completo silêncio do Livro de Atos a respeito de um centro missionário com sede em Nazaré. Todavia, também é digno de nota que o autor canônico não pretendia escrever uma minuciosa história do cristianismo primitivo. Há outras importantes tradições, como a crucifixão de Pedro e a decapitação de Paulo, que também se encontram ausentes no texto produzido por Lucas. Mas, nem por isso seriam menos dignas de confiabilidade histórica.
Há ainda outra evidência, desta vez vinda da arqueologia, que também parece sustentar a historicidade da organização nazarena(6). Ao escavar alguns estratos abaixo da antiga igreja bizantina de Nazaré, Bagatti encontrou os alicerces de outra igreja do 3° século, construída no mesmo formato de uma Sinagoga judaica. A presença de símbolos cristãos, como o peixe, certificaram que se tratava de uma estrutura da comunidade judaico-cristã que viveu no local por volta do ano 200 (7).
Hoje, os restos dessa “igreja-sinagoga” e da igreja bizantina posterior podem ser vistos num sítio que se estende desde fora até dentro da moderna Igreja da Anunciação. Alguns estudiosos também acreditam ser ali o local da casa onde morava Maria, mas quanto a essa posição faltam-nos elementos sólidos que permitam uma alegação conclusiva a respeito do assunto.
Notas:
1- Sobre as escavações e conseguintes conclusões desse arqueólogo, veja suas notas em B. Baflatti, The Church from the Circumcision (Jerusalém: Franciscan, 1971).
2 - Bellarmino Bagatti, Excavations in Nazareth: From the Beginning till the XII Century (Jerusalém: Franciscan Printing House, 1969), v. 1, p. 28; Richard A. Horsley, Archaeology, History and Society in Galilee: The Social Context of Jesus and the Rabbis (Valley Forge, PA: Trinity Press International, 2000), p. 102.
3- Veja, por exemplo:  J. Murphy-O`Connor, The Holy Land: An Oxford Archeological Guide from Earliest Times to 1700 (Nova York: Oxford University Press, 1998), p. 374.
4-  Cf. Julio Africano, “The Extant Writings”, em ANF, v. 6, p. 125-139.
5-  Citado por J. Murphy-O'Connor, p. 374.
6-  Veja Ray A. Pritz, Nazarene Jewish Christianity: From the End of the New Testament
Period Until Its Disappearance in the Fourth Century (Jerusalém: Magnes Press, The
Hebrew University Press, 1992).
7-  Berlamino Bagatti, The Church from the Circumcision (Jerusalém: Franciscan Printing
House, 1971), p. 12 e seguintes.
Do livro “Escavando a verdade”  pag 168 a 170 Editora Casa Publicadora Brasileira

Mais informações na Wikipedia

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