quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O excesso de posses dificulta a criação de vínculos afetivos e diminui a concentração de crianças e adultos



O excesso gera confusão, desequilíbrio, desavença e trabalho inútil. Problemas de atenção.




Por Regis Mesquita



Concentração é uma habilidade. Como toda habilidade tem que ser treinada para ser bem usada.

As características da vida moderna pouco contribuem para este treino, por isto vemos o aumento dos problemas relacionados à falta de atenção.

A mente que consegue se concentrar tem como característica desprezar outras variáveis que podem interferir. Uma pessoa concentrada estuda e não se distrai com o barulho de um jogo. Basicamente, o treino da concentração é este: manter o foco e desprezar o que desvia a pessoa do objetivo.
Durante milhares de anos o ser humano teve um aliado neste treinamento: a privação. Uma criança que só tinha um carrinho para brincar tinha que forçosamente se concentrar em brincar com este carrinho. Ele era obrigado a fazer algo muito especial: criar vínculo com o brinquedo. Existia um vínculo forte entre a criança e seu brinquedo, que o acompanhava por vários anos.




Aqui aprendemos outra característica do treino da concentração: vínculo. O vínculo é o que dá duração e intensidade à uma relação criança/brinquedo ou adulto/atividade. Esta duração e intensidade é o que permite o aprofundamento do conhecimento e da realização pessoal.

Explico:

duração -  brincar com o carrinho durante meses ou anos. Não se desprezava o que tinha. Ao contrário, valorizava.

Intensidade - ele gostava muito do carrinho. Para brincar com ele, a criança criava situações. A criança simulava uma garagem, por exemplo. Desta forma, as brincadeiras incentivavam a criatividade, a espontaneidade, a realização de projetos, etc.

A privação é que criava um mundo mais lento, portanto mais propício ao vínculo e à criatividade.

O tempo passou e as famílias ficaram menores, as crianças presas em ambientes fechados, com menos amigos e muito mais brinquedos. Uma quantidade tão grande de brinquedos que poucas conseguem criar vínculos, ter permanência e intensificar o brincar.

A consequência óbvia: a criança pula de uma atividade para outra, sem vínculo e sem profundidade - com pouca concentração.

Uma criança que possui centenas de brinquedos tem muito mais dificuldade de criar vínculo. Até porque esta criança já sofreu tanto que se "recusa" a aprofundar novos vínculos (gostar).

Explico: a criança ganha uma boneca e começa a criar vínculo com ela, mas logo aparece outra boneca que tem uma característica diferente. Ela despreza a boneca mais antiga e fica com a nova. Brinca com a nova, começa a gostar dela. Vem uma mais nova ainda. Ela muda para esta mais nova e o gostar (vínculo) com as outras acabam. Não existe PERMANÊNCIA. Sem permanência não existe vínculo. Fica um vazio, pois o vínculo é absolutamente necessário para o nosso corpo e mente.

Regra: o que permanece é o que cria vínculos fortes e saudáveis. Quando há muita troca, os vínculos ficam frágeis e a pessoa evita aprofundar (pois cada vínculo que se perde é uma dor emocional).

Quando for adolescente ou adulta, ela terá receio de criar vínculos com qualquer outro objeto - tamanha quantidade de feridas que acumulou na sua infância. Um bom exemplo é a roupa que ela compra, acha linda e já sabe que descurtirá no prazo de alguns meses. Sua mente já se prepara para diminuir o vínculo ao máximo para que a dor do gostar e perder não ameace sua saúde mental.

Somos máquinas de produzir vínculos. Nossa atenção precisa do vínculo para funcionar adequadamente. Esta máquina de produzir vínculos (ligações afetivas) está muito machucada por todas as vezes que os vínculos começaram a surgir e foram abortados. São milhares de "sementinhas que começaram a desabrochar e foram arrancadas". Apesar de serem vínculos de baixa intensidade, são vínculos que acontecem milhares de vezes na vida da pessoa. São milhares de micro frustrações. 

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O excesso causa desprezo pelas coisas. E o pior: CAUSA DESPREZO POR AQUILO QUE SENTIMOS pelas coisas. Nós desprezamos nossos sentimentos e nos machucamos; e mesmo assim continuamos trocando tudo à nossa volta, sem chance de aprofundar o amor, o carinho, o afeto, a dedicação, o cuidado. Geramos adultos com dificuldade de gerar vínculos permanentes; seja por um vestido, uma boneca, um carro ou por outras pessoas.

Este processo acontece em variados graus com a quase totalidade das pessoas.

Sem permanência, fica muito mais difícil ter concentração. Pois o treino da concentração é realizado a cada minuto através do vínculo que estabelecemos. O vínculo nos permite ter foco, selecionar as variáveis que percebemos e desprezar outras.

Pense bem: se você gosta de alguém, você é capaz de ficar horas e horas conversando com ela. O vínculo cria foco e concentração. O vínculo diminui a distração. Se o vínculo é frágil e o gostar pequeno, a pessoa já começa pensar em um monte de outras pessoas. Pega o celular e fica "distante", mudando de conversa em conversa (tudo sem profundidade e sem intensidade).

Se privar voluntariamente. Ter autocontrole, desenvolver a satisfação, aproveitar o que já é e usufruir do que já possui.  Este processo é o treino da concentração e da atenção. Valorizar o que já tem e está à mão faz com que a pessoa tenha um foco e uma permanência - que são as condições para o treino da concentração.

O que se busca são dois ganhos: treinar a concentração e dar intensidade aos sentimentos e às posturas mais gostosas da vida: amor, dedicação, serviço, carinho, cuidado.

Além do descrito aqui, existem várias técnicas que podem ser úteis: meditação contemplativa, autotoque, etc.

São escolhas que tornam a vida melhor, se praticadas com intensidade e coerência.

Atenção: quando a pessoa não desenvolve o vínculo profundo, ela desenvolve uma outra habilidade: copiar. Esta é a razão de ter surgido a geração seguidora: a geração que segue os que outros indicam para ela. (Leia os textos sobre esta Geração Seguidora clicando aqui).


Autor: Regis Mesquita
https://twitter.com/mesquitaregis




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Um comentário:

  1. "Tamanha concentração é chamada distração" (Einstein)
    Textos muito bons, leio toda semana... Parabéns!

    Rosana Bueno

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