domingo, 25 de novembro de 2012

Aula de história e antropologia: a megalomania sustentando a crença religiosa e a fé




Arte usada para propagar e ensinar a fé



Uma das heresias de Martinho Lutero foi traduzir a Bíblia para o alemão. Segundo ele, as pessoas deveriam ter fácil acesso à leitura da Bíblia. Nas igrejas, a Bíblia era lida em Latim, para uma população analfabeta. Imagine um camponês francês analfabeto olhando para uma Bíblia em latim. A palavra de Deus estava ali e ele não tinha a menor condição de lê-la e de entendê-la. Ler e explicar a Bíblia era uma das funções da Igreja Católica, com seus milhões de sacerdotes.

A mensagem era clara: o que é tão importante (Bíblia) deve ser objeto de adoração. Não seria qualquer um que a leria. Até hoje os preconceituosos fazem uma relação entre importância e exclusividade.

Lutero quebrou esta tradição, mas somente no século 16. Antes disso, o camponês analfabeto tinha um recurso muito importante para entender sua religião: as imagens.

Paulo foi decapitado em Roma. É o que mostra a escultura no início do texto. Ele é levado por soldados romanos, ajoelha, reza e morre decapitado. Assim, o camponês aprendia e guardava a História bíblica em sua mente: o homem santo morre nas mãos dos maldosos e encontra seu lugar no céu.


Imagens servem para doutrinar a mente das pessoas religiosas


As imagens também transmitem ideologia: Pedro é um homem santo e tem as chaves para a entrada no céu. Foi ele quem fundou a Igreja Católica, a mando de Jesus. Esta é a chave para entrar no Céu. Portanto, a submissão à igreja é fundamental para a salvação da alma. Os camponeses tinham medo de serem excomungados (como foi Lutero) e continuarem a sofrer no inferno. Qual é o segredo para isto não acontecer? Seguir quem tem a chave: a igreja e seus sacerdotes.

Foi uma época de grande poder religioso. E o poder tem uma faceta:  sempre tem alguém desqualificado e outro que usa esta desqualificação oferecer benesses; quem oferece benesses tem poder. Este “alguém” pode ser um lugar: a rua é perigosa, fiquem em casa assistindo TV que é mais seguro (enquanto isso as imagens da TV moldam o cérebro das crianças).  Ou pode ser uma raça; as intermináveis discussões do século XIX a respeito de negro ter ou não alma mostram isto.  O poder funciona assim: o dominador tenta desqualificar o dominado e se coloca como solução para o problema. O dominado, se achando esperto, aceita  e concorda com o dominador.

É triste imaginar que enquanto houve algumas centenas de milhares de escravos que lutaram contra a escravidão, houve milhões que aceitaram e até ajudaram a sustentá-la. Os camponeses europeus fizeram o mesmo:  a Bíblia é tão importante que eu não mereço lê-la; tem alguém melhor do que eu que me presta este favor.  Foi este “acordo” que Lutero quebrou: ninguém precisa de intermediários, leia você mesmo. Imagino a quantidade de preguiçosos falando mal de Lutero, porque teriam dois trabalhos a mais: aprender a ler e estudar a Bíblia. (Outra decisão de Lutero foi retomar a tradição do Velho Testamento e desprezar as imagens nas igrejas.)

A imagens podem ser usadas para promover a inovação ( o cubismo e o renascimento, por exemplo). Porém, mais costumeiramente, são formas de perpetuar a dominação e o preconceito.  

Um aspecto fica claro na imagem de Pedro com a chave. O luxo! Se é sagrado é especial. Se é especial, precisa de luxo e/ou exclusividade. A imagem de Pedro (na foto deste texto) é de bronze, mas nas igrejas o ouro mostrava o quanto as pessoas valorizavam o sagrado. Em todas as religiões o luxo e a exclusividade têm esta função. Não adianta falar de amor, de caridade, compaixão, etc. As pessoas adoram associar o sagrado a qualquer coisa megalomaníaca. Ouro, por exemplo. Ou com um lugar santo (lugar "especial"), pois ali acontecem coisas fantásticas. Esta é a base da idolatria. Acontece em todas as religiões (geralmente quem funda é humilde, quem vem depois cria a idolatria). Kardec disse que se algum dia a ciência mostrasse que existe algum erro em seus escritos os espíritas deveriam ficar com a ciência. Hoje em dia, muitos kardecistas já esqueceram esta frase.

As pessoas associam a megalomania a ser “especial”. Uma forma de criar este “especial” é criando regras e mais regras. Quem já viu os crentes andando sob o sol escaldante, vestindo terno para ir ao culto, sabem do que estou falando. “Deus é importante, portanto não posso ir com qualquer roupa. Devo ir com a roupa que o colonizador europeu me ensinou que é roupa chique. Se for com uma roupa digna e mais adequada ao clima, estou fazendo pouco caso de Deus”. De novo a imagem domina a mente, e os crentes vão para o culto para aprenderem a ser humilde vestindo terno e gravata. Vão ao culto aprender a mensagem de Jesus de que o que importa é o que vem do coração. Vir do coração é tão simples, que não dá o sentido de especial (a não ser que seja uma paixão avassaladora). 

Estas contradições existem porque a crença religiosa precisa de conteúdos megalomaníacos para se reforçar. A crença religiosa é importante, mas deve ser secundária na vida das pessoas. Em poucas pessoas, a crença/prática religiosa é um aspecto fundamental. Para a maioria é uma necessidade secundária. Se a pessoa aceitar que é secundária, é mais fácil se desapegar dos traços megalomaníaco que existem em todas as religiões (já que é uma necessidade dos humanos pouco amadurecidos). Quem desapega da megalomania, encontra mais facilidade para viver a espiritualidade.

A pessoa pode copiar os outros e dizer: sua santidade, o Dalai Lama. Esta pessoa estará se afastando da espiritualidade e deixando sua mente caminhar para a megalomania. O respeito ao próximo é indiferente a estes termos de exclusividade. Na idade média, Pedro foi retratado como portador da chave para entrar no Céu, um santo. Foi objeto de idolatria, igual ao que acontece hoje em todas as religiões. Pessoas que restringem a sua vivência espiritual precisam idolatrar alguém, algum lugar, algum objeto, alguma regra. Precisa existir algo especial. Esta necessidade de se ligar a algo especial gera até os que idolatram marca de bolsa.

Por fim, observe que a megalomania é uma das principais formas que o ser humano usa para se adequar ao que é socialmente esperado dela. Por isto, na quase totalidade das vezes megalomania é igual à cópia. Quer um exemplo? Milhões de crianças e adolescentes copiam o cabelo do jogador Neymar. Desta forma, sentem-se especiais.

Autor: Regis Mesquita  @mesquitaregis




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