sábado, 11 de janeiro de 2014

O todo poderoso Reflexo de Orientação, o stress e o déficit de atenção









Amigos do site Psicologia Racional,


A forma como o cérebro humano funciona não depende só do conteúdo que ele apreende. Depende, principalmente, das características da estimulação que ele recebe. Sendo assim, o cérebro de uma criança que atualmente tem 7 anos é razoavelmente diferente do cérebro de uma criança de 7 anos em 1920. Por estar submetida a estímulos diferentes, estimula-se áreas diferentes do cérebro, o que gera modificações significativas.

O resultado destas modificações é que algumas patologias estão aumentando significativamente. É de se pensar: o que podemos fazer para preveni-las?

(Obs: para entender os dois modos básicos da mente humana funcionar – mente neutra - clara e mente reativa – visite o blog Caminho Nobre)

Abaixo coloco um trecho do livro “O cérebro que se transforma”  (pag 328 e 329). Este trecho descreve o reflexo de orientação, surgido nos primórdios da humanidade e a influência sobre ele das novas tecnologias áudio-visuais. Depois comento.


“A televisão, os clips de música e videogames, todos que usam técnicas de televisão, desenrolam-se em um ritmo muito mais rápido do que a vida real e estão ficando mais rápidos, o que leva as pessoas a desenvolveram um apetite cada vez maior por transições de alta velocidade nessas mídias.




“É a forma do meio de televisão - cortes, edições, zooms, panorâmicas e ruídos súbitos - que altera o cérebro, ativando o que Pavlov chamou de “reflexo de orientação”, que acontece sempre que sentimos uma mudança repentina no mundo, especialmente um movimento súbito. Por instinto, interrompemos o que estivermos fazendo para nos virar, prestar atenção e nos orientarmos. O reflexo de orientação evoluiu, sem dúvida nenhuma, porque nossos antepassados eram ao mesmo tempo predadores e presa e precisavam reagir a situações que podiam ser perigosas ou podiam se mostrar oportunidades repentinas de comida ou sexo, ou simplesmente situações novas. A resposta é fisiológica: o batimento cardíaco diminui por 4 a 6 segundos.”

“A televisão estimula essa resposta a uma taxa muito mais rápida do que experimentamos na vida, e é por isso que não conseguimos desgrudar os olhos da tela da TV, mesmo no meio de uma conversa íntima, e é por isso também que as pessoas veem TV por muito mais tempo do que pretendem. Como os clips de música, sequências de ação e comerciais estimulam reflexos de orientação a uma taxa de um por segundo, assisti-los nos coloca irrecuperavelmente em reflexo de orientação contínuo. Não admira que as pessoas falem de se sentir esgotadas de tanto ver TV. Entretanto, adquirimos um gosto por ela e achamos tediosas as mudanças mais lentas.”

 O preço a pagar é a dificuldade crescente em atividades como ler, manter uma conversa complexa ou assistir às aulas.”


Comentando:

Cada vez que seu instinto de proteção e sobrevivência é ativado – por exemplo, através do reflexo de orientação – aumenta o stress e diminui o nível de segurança básica.

O cérebro fica hiperestimulado (estressado) e excitado. As drogas “da moda” desde o meio dos anos 70 até hoje (coincidindo com a tremenda popularização dos meios de comunicação Tv, internet e vídeo games) foram estimulantes da mente: cocaína, crack, bebidas “energéticas”, entre outros. Durante a contra-cultura (final dos anos 60 e começo dos anos 70), movimento que pregava a “saída do sistema”, as drogas mais usadas eram LSD e maconha – eles buscavam tornar a vida mais “lenta, curtida, calma, paz e amor”.

Quando uma mocinha compra o "energético" Red Bull para beber, ela está mantendo sua mente “estimulada”. Ela está condicionada a viver neste estado mental. A todo momento precisa de novos estímulos, novas compras, novas tecnologias, novos lugares para ir, novidades, novidades, novidades. É um modo de vida mais impulsivo, mais estressante, mais narcísico – que transforma parte das pessoas em sérias candidatas a desenvolverem depressão e/ou terem problemas com a atenção.

Vou usar um exemplo mais radical: depois que as pessoas usam cocaína e “superestimulam” o cérebro, vem o esgotamento e o “vazio existencial”. A pessoa precisa de mais droga para voltar a se sentir bem. O mesmo acontece com uma parcela das pessoas que não usam drogas, mas que se submetem à hiperestimulação (hiperexcitação) da mente.  Elas precisam de estímulos consecutivos para combater o esgotamento (estão sempre cansadas e “sem tempo”) e o vazio existencial. Traduzindo: o cérebro que recebe muita estimulação precisa descansar mais; se houver troca rápida de estímulo a necessidade de descanso é maior.

Ao ativar rapidamente e constantemente áreas que originalmente eram de defesa (instintos de sobrevivência) a vida moderna está estimulando o fortalecimento de áreas do cérebro que estão ligadas a estes instintos. Ou seja, quando vão processar quaisquer estímulos ambientais, os instintos de sobrevivência também são ativados. Exemplificando:  a pessoa vai à praia. O relaxamento deveria ser acompanhado pelo “desligar do mundo e de tudo”.  Deveria, mas o instinto de sobrevivência necessita saber de tudo, necessita manter-se ativo, para poder se defender. Ou seja, o hábito de se manter conectado é reforçado pela necessidade vital de manter-se alerta (1)

O desligar de tudo, necessário para promover a calma mental, depende de ativar outras áreas da mente que geram a segurança básica. A segurança básica existe quando o instinto de sobrevivência “fica quietinho” e os sentimentos nobres podem ter preponderância. Um bom exemplo é seu cachorro de estimação. Se ele está descansando deitado no chão e você passa perto dele, ele se mantém tranquilo e em paz; e continua deitado “numa boa”. Se uma pessoa desconhecida passar perto dele, ele fica alerta e provavelmente sairá do caminho (área de risco, já que não conhece e não se sente seguro com o desconhecido). 

Observe que a resposta do cachorro depende da interpretação que ele faz da pessoa que passa perto dele (o estímulo mental). Quando seu cuidador (o dono) passa perto, ele não tem nenhuma reação baseada no instinto de sobrevivência. Ele só desperta seu instinto de sobrevivência quando é alguém desconhecido que chega perto dele.

Se ele for um cachorro traumatizado ou neurótico, ficará alerta o tempo inteiro. Cada estímulo que chegar até ele servirá para despertar seu instinto de sobrevivência – ficará sempre alerta. O humano moderno se comporta com um neurótico que fica sempre alerta, com o instinto de sobrevivência excitado. Fica sempre ligado, conectado; sempre estimulado, sempre estressado e, por isto, sempre cansado e necessitando sempre de mais estímulos.

A recompensa baseada no instinto de sobrevivência é o alívio. Alívio dá prazer, porque gera contraste na mente das pessoas. Voltemos ao exemplo do cachorro: passa perto um desconhecido, ele  estressa, sai do lugar, fica distante do “perigo”, em seguida vem o alívio do stress (já que o desconhecido não o atacou), o que gera prazer. O cachorro deita em outro lugar e a volta da paz é o alívio do stress (Ufa! Não fui atacado.) .

O ser humano é mais complexo, e pior. Ele se prende à recompensa (prazer) do alívio e reforça seu comportamento de stress e insegurança. É o que acontece com a moda, por exemplo. A moda vive de um fenômeno mental complexo de insatisfação, tédio e medo/stress. Para aderir à moda atual a pessoa deve ter descartado todo seu vínculo com a moda anterior. O que era bonito não é mais e a novidade é a recompensa por desejar igual às outras pessoas. A moda vive do treinamento mental de ficar insatisfeito e depois ficar feliz quando se tem o alívio desta insatisfação. O oposto desta situação: quando a pessoa está satisfeita ela cria vínculo, carinho, permanência – ela adora determinada roupa e “não troca por nada” (ou seja, mantém a roupa e se distancia da moda).

( Um uso sadio do alívio como fonte de prazer é andar na montanha russa do parque de diversão. O processo é gerar tensão e depois alívio. O resultado é o prazer e uma boa lembrança da diversão. Este texto explica detalhadamente o uso do alívio para ter prazer: O paradigma da montanha russa explica o porquê da sua pouca satisfação com a vida )

Clique Aqui
A satisfação constante está ligada ao vínculo e à permanência. A satisfação constante depende do “desligamento” do instinto de sobrevivência, o que permite a paz mental. É o espaço propício para surgir o amor, a plenitude, a tranquilidade. As pessoas amam tanto seus animais de estimação porque eles são sempre os mesmos, estão sempre por perto e vivem simples. Existe continuidade, permanência e, portanto, cria-se vínculo profundo, segurança básica e satisfação.

Esta pessoa que ama seu animal de estimação construiu um espaço de amor em sua vida. Mas, por outro lado, pode ter treinado sua mente para ativar seu instinto de sobrevivência sempre que receber outros estímulos que vem de outros humanos. Nestes outros momentos, ela entra no padrão tensão, stress, insatisfação e alívio. O prazer fica dependente do alívio . O stress vai às alturas, alguns desenvolverão síndrome do pânico, depressão, ansiedade patológica, drogadição, entre outros.

Outros responderão à hiperestimulação dos instintos de sobrevivência tornando-se preguiçosos. Outros buscarão a proteção na alienação ou na falta de compromisso. O que é importante entender é uma regra mental: tudo que é hiperestimulado cria seu oposto. Por exemplo: jovens que assistem muita pornografia ficarão mais susceptíveis a terem dificuldade de ereção/excitação. Pessoas que estão constantemente estimulando a atenção (através do reflexo de orientação, por exemplo) ficarão mais susceptíveis a terem algum distúrbio de atenção.

Algumas ideias de prevenção: nada de TV para crianças até 3 anos de idade. Muito pouca tv e jogos para crianças até 7 anos de idade. Ajudar crianças e adultos a criarem vínculos e desenvolverem suas vocações. Praticar a autoprivação voluntária, para que o excesso não crie o oposto do que se quer.

Sugiro que estude os textos deste site Psicologia Racional e os textos do blog Caminho Nobre, assim você entenderá melhor as propostas e as teorias que envolvem estas propostas.


1 - O "sempre alerta", sempre estressado, afeta profundamente a qualidade do sono. Este é um dos motivos pelos quais os problemas relacionados à má qualidade do sono estão aumentando tanto nos dias atuais.


Autor do texto: Regis Mesquita
https://twitter.com/mesquitaregis



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Leia também:













Pense nisto!

Uma pessoa treinada para ter uma mente reativa pode ter milhares de experiências positivas. Mas, as experiências (reais ou imaginárias) centrais em suas mentes serão as negativas.

Quando o instinto de sobrevivência é ativado ele “rastreia” o mundo a procura de risco; ou seja, as negatividades que podem trazer-lhe prejuízo. Em pouco tempo, a mente fica condicionada a manter na consciência o negativo e desprezar o que é nobre.





Para você que está conhecendo o site PSICOLOGIA RACIONAL: este site se propõe a ter textos originais que discutam assuntos do cotidiano. São textos que podem servir para reflexão sobre a vida que cada um leva. Com isto espero contribuir um pouco com você.






2 comentários:

  1. Regis Mesquita, seu blog consegue trazer informações sérias de um modo simples. É por isto que gosto de voltar aqui.
    Aprendi muito com o texto de hoje. Muito obrigado!
    Também gosto muito do seu outro blog Caminho Nobre. É muito esclarecedor.

    Luciano Almeida

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  2. Caramba é incrível o conteúdo do seu site,Sem palavras.Muito obrigado pelas postagens!Está me ajudando muito!Nadir da Rosa

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