domingo, 5 de janeiro de 2014

Exemplo de como nossas experiências de vida moldam nossos órgãos e nossa genética (epigenética)



Quando existe a cooperação e o servir, o corpo humano responde com paz, segurança e aumento da energia vital. Livro: A Espiritualidade no Dia a Dia




Por Regis Mesquita


Durante décadas os cientistas “torceram o nariz” para a ideia de que nossas experiências de vida (pensamentos, sentimentos, sensações, fatos, etc) eram capazes de moldar o funcionamento do nosso corpo.

Atualmente milhares de experimentos têm demonstrado que isto acontece em uma intensidade altíssima.  Nossa vida molda nosso corpo em todos os níveis, inclusive molecular. Pode adoecê-lo ou curá-lo.

Aqui no Blog Psicologia Racional, já coloquei muitos textos que mostram a importância da nossa atividade cotidiana para produzir bons ou maus resultados no nosso corpo e mente.  O texto reproduzido mais abaixo, extraído da revista Ciência Hoje (nº 285), descreve de modo simples a interação entre mente, corpo, genética e bem estar. São vários níveis que se inter-relacionam e formam a vida humana.

No meu consultório, para agir intensamente sobre o corpo, induzo os pacientes a estados alterados de consciência e também uso de treinamentos mentais.  Existem muitos recursos capazes de produzir melhoras duradouras.

O texto chama-se: “Todos tem ansiedade.  Então, quando é um transtorno?” Transcrevo um trecho abaixo:


“O estudo da ansiedade tem progredido a passos largos, graças ao mapeamento, por técnicas de neuroimagem, de estruturas-chave envolvidas no processamento das informações emocionais no cérebro. Nesse contexto, a ansiedade patológica pode ser vista como o resultado da superativação de certas regiões do cérebro.

É surpreendente imaginar que a propensão a disfunções psiquiátricas como os transtornos de humor e de ansiedade pode ser em grande parte determinada no início da vida. Eventos iniciais no desenvolvimento de um feto ou bebê podem levar a pessoa a ter, ao longo da vida, uma tendência de expressar maior ansiedade em resposta a um estímulo ameaçador. Fatores genéticos capazes de reduzir a resposta do cérebro ao neurotransmissor serotonina, por exemplo, podem aumentar a probabilidade de um indivíduo desenvolver transtornos de ansiedade ao ser exposto a experiências traumáticas.




Animais que sofrem situações traumáticas no início do desenvolvimento, como separação materna ou fome, exibem maior tendência a desenvolver transtornos ansiosos na idade adulta e apresentam alterações fisiológicas como diminuição do hipocampo, estrutura cerebral importante para a formação de memórias. Isso também é constatado em diferentes estudos com crianças que sofreram abuso (físico, emocional ou sexual), presenciaram violência ou viveram eventos de separação duradoura e perda. Tais crianças têm um hipocampo menor e redução na produção de serotonina, e em geral desenvolvem algum tipo de transtorno de ansiedade. Uma explicação plausível, embora não existam evidências conclusivas, é a de que o hipocampo é mais suscetível às influências do ambiente no início do desenvolvimento e de que a redução dessa estrutura cerebral resultaria, entre outros fatores, da presença de altos níveis de cortisol (o famoso hormônio do estresse) na corrente sanguínea.

Por outro lado, estudos mostram que animais estimulados positivamente no início da vida pós-natal têm menor propensão à ansiedade. Ratos de mães ansiosas, mas criados por mães que exibem maior comportamento de lamber os filhotes (comportamento relacionado a menores níveis de ansiedade) passam a exibir menor ansiedade, ao contrário dos irmãos biológicos criados pela mãe ansiosa, que lambia pouco. Os efeitos moleculares desse fenômeno são impressionantes:  o comportamento materno é capaz de ligar ou desligar a expressão de determinados genes, o que influencia diretamente o comportamento da prole. Esses estudos são chamados epigenéticos e representam uma mudança radical em pensamentos científicos anteriores, pois evidenciam que a genética é aberta à influência ambiental.

Outras experiências positivas no início da vida também são capazes de trazer repercussões moleculares importantes. Alguns exemplos de resultados são um menor número de receptores para o cortisol, aumento do número de ligações entre neurônios (sinapses) no córtex cerebral e no hipocampo e aumento nos níveis de uma molécula chamada “fator neurotrófico derivado do cérebro' (BDNF, na sigla em inglês). Essa molécula é liberada pelos próprios neurônios e os ajuda a crescer, a se multiplicar, a fazer novas sinapses e a sobreviver.

Mas por que algumas pessoas têm maior resistência a desenvolver transtornos de ansiedade, mesmo quando expostas a situações traumatizantes? Uma das respostas, em termos biológicos, pode estar nessa molécula, o BDNF. Ela ajuda a regular a chamada plasticidade sináptica - a capacidade dos neurônios de alterar a forma de interação com outros, fenômeno envolvido nos processos de aprendizagem e memória, em especial na aprendizagem do medo e em sua extinção. A diminuição dos níveis de BDNF ou alterações na sequência de aminoácidos dessa proteína têm sido relacionadas a uma menor extinção de memórias aversivas ou traumáticas em humanos, o que estaria relacionado a transtornos de ansiedade”.


Comentário:  A forma como você pensa, sente e vive molda seu corpo. Há uma profunda interação entre mente, corpo, sentimentos e influências ambientais. Hoje, não há mais dúvida sobre isto. A questão é: o que fazer com este conhecimento?

Uma ação é valorizar os processos terapêuticos que usam Estados Alterados de Consciência. Eles servem justamente para ajudar pessoas que possuem maior dificuldade de elaborar e resolver seus traumas, seja por uma dificuldade molecular, por terem fragilidade egoica, por existirem outros distúrbios mentais consorciados, condicionamentos, etc. 

Outra ação é tomar muito cuidado com o uso de medicamentos. Pense no mal que o uso indiscriminado de remédios (drogas) pode causar. A ansiedade é a superativação de determinadas áreas do cérebro. Existe algo moldando, gerando e mantendo esta superativação. Os remédios atuam sobre as consequências, e não na causa. O tratamento é pouco eficiente. É por isto que no meu consultório vivo recebendo pacientes que tomam remédios por anos e anos, não curam e pouco melhoram.  Esta PERDA DE TEMPO faz a estrutura mental do paciente se moldar e se organizar sob a influência da patologia, dificultando a melhora. 





É importante lembrar que a ansiedade é apenas uma parte desta estrutura mental. Para o controle da ansiedade são necessários vários tipos de treinamentos, além do processo terapêutico. Alguns pacientes respondem super bem as técnicas de respiração, por exemplo.

Todo tratamento tem maior chance de ser bem sucedido se o diagnóstico for capaz de entender como toda a mente da pessoa funciona e se organiza. Porque cada característica humana gerará reações positivos ou negativas sobre sua vida e sobre seu corpo. Estas reações influenciarão o funcionamento do corpo nos mínimos detalhes.


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Outra ação:
Aqui no site Psicologia Racional você encontrará um texto mostrando como a poluição sonora pode diminuir a inteligência das pessoas (clique aqui). Ou seja, além do aumento do stress e da diminuição da qualidade de vida, quem está submetido à poluição sonora perde parte da sua capacidade cognitiva. O que as pesquisas com foco mais biológico estão descobrindo são os mecanismos físicos que geram esta diminuição. O que fazer? Gerar mais qualidade de vida nas cidades, por exemplo. Saúde mental também depende do trabalho de arquitetos, engenheiros e muitas outras profissões. É importante gerar cidades adequadas para as reais necessidades humanas.

A epigenética quebra resistências de muitos profissionais de levar a sério o fato de que a mente pode fazer o corpo adoecer ou mudar a herança genética. Desta forma, técnicas destinadas a melhorar a mente das pessoas estão sendo mais valorizadas.

OBS: Um dos grandes problemas dos estudos biológicos é que para realizarem as pesquisas são escolhidas poucas variáveis. A vida real do ser humano é o oposto disto, possui uma quantidade MUITO grande de variáveis. Por isto, eles demoram décadas para chegar à conclusões básicas. Neste texto, por exemplo, não é tratada a questão da impulsividade - que comumente aparece junto em pacientes ansiosos. Nem é tratada aspectos de focalização mental – fixação momentânea em uma ideia (o que traz grandes danos para os ansiosos).


Autor: Regis Mesquita
https://twitter.com/mesquitaregis 



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Para refletir:


"A revista Nature divulgou, em 2010, um trabalho da Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália) sobre a submissão de ratos machos à dieta típica norte-americana. Além de engordarem, os animais desenvolvem diabetes tipo 2. Nada de surpreendente. No entanto, as filhas desses ratinhos, ao atingirem a idade adulta, também se tornam diabéticas, apesar de seguirem um menu saudável. Além disso, as suas mães não são gordas e passaram uma gravidez sem sobressaltos. Os próprios pais não têm antecedentes familiares da doença. 


Os efeitos da dieta da gestante sobre a saúde das crianças em adultos são bem conhecidos e justificáveis, pois os nutrientes passam através da placenta. No entanto, os homens não têm qualquer contacto com os fetos antes do nascimento, excepto através do esperma. Por este motivo, os cientistas australianos concluíram que a dieta calórica altera o esperma dos ratos machos e induz o início de diabetes nas filhas. O próximo passo da equipa é estudar os efeitos nos netos."  (Revista Superinteressante Portugal)



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3 comentários:

  1. Muito bom. O conteúdo. Não vi a referência bibliográfica. Você tem? Pode compartilhar?

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    1. Obrigado pelo elogio. As fontes estão descritas no texto e nos links espalhados pelo texto.

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